Indicada para presidir Comissão do Orçamento, Flávia Arruda destaca importância da indicação para as mulheres e para o DF

Deputada Flávia Arruda (PL-DF), candidata à presidência da Comissão Mista de Orçamento da Câmara dos Deputados (CMO), em entrevista ao Correio Braziliense, explicou a origem de sua candidatura a partir do apoio do bloco da maioria, na Casa.

“Quem indica no regimento da casa é o maior bloco, é a proporcionalidade. Na proporção dos partidos, o maior bloco na junção dos partidos é quem tem a prerrogativa de indicar a Presidência da CMO”, explicou a parlamentar.

Flávia se disse orgulhosa pelo fato de ser a primeira vez que uma mulher pode chegar a presidir a CMO, uma comissão que reúne senadores e deputados e é considerada um dos colegiados mais importantes do Congresso Nacional.

Ela lembrou, ainda, do significado que sua indicação tem para o Distrito Federal, já que o “DF nunca teve um protagonismo orçamentário, porque é uma unidade da federação que tem recursos próprios, tem o fundo constitucional e tem uma bancada pequena”.

Na sequência, a entrevista, na íntegra:

Alexandre de Paula: A disputa pela presidência da Comissão Mista de Orçamento tem parado a pauta na Câmara dos Deputados, a senhora é uma das indicadas, mas existe outro grupo ligado ao presidente Rodrigo Maia contra essa indicação, tem um outro nome. O que falta para chegar a um acordo, quando que essa confusão vai terminar?

Flávia Arruda: Boa tarde, Alexandre, e a todos que estão nos assistindo agora, por todas as plataformas digitais. Bom, Alexandre, o que tem aí, estruturalmente em tudo isso, falaste muito do pano de fundo, de uma disputa interna, já da sucessão da presidência. Mas o que eu aqui quero colocar, que a única candidatura oficial que existe é a minha, por ser a candidatura do bloco. A CMO, é uma Comissão Mista, para quem está nos assistindo, dentro do Congresso, as pessoas não tem obrigação nenhuma de saber do que se trata. É uma Comissão Mista que trata do Orçamento, mista porque é Senado e Câmara. E a cada ano o presidente é de uma casa e o relator da outra. E esse ano a presidência é da Câmara. Quem indica no regimento da casa é o maior bloco, é a proporcionalidade. Na proporção dos partidos, o maior bloco na junção dos partidos é quem tem a prerrogativa de indicar a Presidência da CMO. E hoje, o maior bloco indicou a minha candidatura, então a única candidatura oficial regimentalmente é a minha. Porém, há um outro candidato, que na verdade nem existe essa candidatura porque ela não está protocolada formalmente, a única protocolada é a nossa. Ele vem de um outro grupo e também trabalha nessa possibilidade. Eu quero deixar registrado que eu tenho apoio amplo dos partidos por se tratar de um regimento e do respeito que todos têm pela proporcionalidade dentro das casas. E a manifestação de várias mulheres, porque é importante a gente ressaltar, que pela primeira vez na história da Câmara uma mulher é indicada para Presidência da Comissão Mista de Orçamento. Que é uma comissão extremamente importante para o país, porque discute o que vai ser, onde será locado o orçamento do ano que vem. Então, para mim é uma honra, muito lisonjeada, me sinto muito prestigiada por ter sido indicada pelo maior bloco, pelos líderes dos maiores partidos da Câmara e por poder representar pela primeira vez na história uma mulher. Que nós somos colocadas sempre em segundo plano. Poucas vezes uma mulher participa desses debates, na verdade nunca participa. Agora foi nos dada a chance, e a gente não vai retroceder, não vamos voltar atrás.

Alexandre de Paula: Deputada, a senhora é parlamentar de primeiro mandato, não é comum um parlamentar já chegar assumindo a Comissão Mista de Orçamento, que é a comissão mais importante. Estava na expectativa algo assim ou foi uma surpresa pela construção com os partidos ¿ E a senhora já se sente preparada para esse cargo?

Flávia Arruda: Bom, foi uma gratíssima surpresa. Eu sou membro da comissão deste o início, porque sou coordenadora da bancada, estou como coordenadora da bancada do Distrito Federal. E o papel do coordenador é representar a bancada dentro do orçamento. Então, eu já estava indicada como membro da comissão e ao longo desse período me preparei muito, estudei muito sobre orçamento. Contratei uma empresa de orçamento público para a gente trabalhar em cima disso. E vários líderes inclusive sabiam, pedi ajuda a muitos deles que tem técnicos e assessores de orçamento muito preparados. Venho me preparando ao longo do ano, justamente por ser membro e representar bem a bancada do Distrito Federal. Quando surgiu essa indicação, eu me senti primeiramente, mais uma vez, muito lisonjeada por ter sido indicada pelo bloco, e segundo por estar absolutamente preparada e confiante de que posso fazer um trabalho de diálogo, de construção, que é uma característica que eu tenho adotado no me mandato de diálogo com todos. Tanto que, nessa manifestação de apoio à minha candidatura tiveram deputadas da base do governo a deputadas da esquerda, todas elas fizeram o mesmo incentivo, a mesma dedicação de homenagem por se sentirem ali representadas por uma mulher. Tive um apoio muito, estou tendo um apoio, muito grande de todas as alas, de todas as diferenças de pensamento, absolutamente suprapartidário, por poder fazer a história, não só do Distrito Federal, que nunca houve ninguém do DF nessa posição, mas principalmente de ter a oportunidade de uma mulher mostrar que elas têm competência tanto ou melhor que muitos homens que ali se encontram.

Alexandre de Paula: A senhora falou que a primeira vez que seria um parlamentar do DF, o Governador declarou apoio à sua candidatura, o secretário André Clemente da economia também falou no CB Poder que seria muito importante. Que diferença faria para o Distrito Federal ter alguém na presidência da Comissão?

Flávia Arruda: Olha, Alexandre, o DF nunca teve um protagonismo orçamentário, porque é uma unidade da federação que tem recursos próprios, tem o fundo constitucional e tem uma bancada pequena. Então, a representatividade e a projeção em relação ao orçamento são sempre menor, o DF nunca teve um protagonismo. E isso hoje, você poder ter a presidente de uma comissão tão importante quanto essa ser representante do Distrito Federal traz para todos nós, e aí agradeço aqui a manifestação pública do Governador, do secretário André Clemente, quem tem tratado das contas publicar com muita responsabilidade, e agradeço publicamente por saber da importância que isso é para o Distrito Federal. Nós podemos colocar também o Distrito Federal no debate de comissões temáticas, que nunca esteve tão presente, então para nós todos e fundamental trazer o protagonismo do Distrito Federal a importância que nós temos aqui de uma população tão grande e de uma cidade que é o retrato 3×4 das desigualdades que a gente tem no país. Nós temos aqui uma das maiores rendas per capitas no Lago, Plano Piloto, e temos ali muito próximo no Sol Nascente, na Chácara Santa Luzia, nós vivemos uma desigualdade muito grande e muito próxima. Então, para nós é muito importante ter esse protagonismo no orçamento e me sinto absolutamente pronta, preparada. Queremos inclusive, se tiver alguma dificuldade ir para o voto, o que a gente quer é a oportunidade. O que não pode é não instalar a comissão, dizer “Ai está atrasando”, quando no fundo é uma prerrogativa apenas do presidente do congresso de instalar ou não. A comissão já teve uma tentativa por duas vezes, e na última estávamos todos lá, prontos para votar em quem fosse o escolhido para presidente e a sessão foi derrubada dois minutos antes. Então, a gente não pode dizer que é isso que está travando, porque quem tem a ferramenta de instalar ou não é o presidente do congresso. 

Alexandre de Paula: O presidente Rodrigo Maia chegou a levantar a possibilidade de não ter a comissão e discutir diretamente o orçamento no plenário. Qual o impacto de uma medida como essa, que prejuízos você poderia trazer para o debate?

Flávia Arruda: É até bom você tocar nesse assunto, porque agora em primeira mão vou te dar aqui uma informação. Eu fiz uma consulta aos técnicos orçamentários do congresso, demorou um pouco para sair, para saber se existia algum fundamento, embasamento regimental ou mesmo na trajetória histórica da comissão se isso já aconteceu em alguma época, desde a instalação da comissão. E nunca houve, não há precedentes para isso, isso nunca aconteceu. Não temos precedente histórico de levar o orçamento direto para o plenário. O que significa levar o orçamento direto para o plenário? É o orçamento que o governo enviou vai direto para o plenário para votar sem se discutir em quais áreas são mais importantes, discutir temas específicos, de repente transferir recursos de um lugar a outro, porque a gente sabe nós vamos viver um ano ainda mais difícil do que esse ano que enfrentamos, infelizmente. A gente está vivendo uma pandemia muito grave no mundo, no Brasil, e claro, também aqui no Distrito Federal. É uma crise sanitária muito grande, uma crise econômica, mas também, e principalmente, uma crise social. A gente enfrenta uma crise social que ano que vem pode ser agravada, porque não termos mais a injeção de recursos do Auxílio Emergencial.

Alexandre de Paula: Essa é uma discussão que está muito forte também, da prorrogação desses programas de renda, da necessidade de se pensar em um programa também mais sólido e que seja mais duradouro. Como é que a senhora vê essas iniciativas, e existe espaço no orçamento para se pensar nisso?

Flávia Arruda: Espaço sempre há! Nós temos um orçamento muito apertado realmente, e essa é mais uma razão de se instalar imediatamente a Comissão de Orçamento, porque precisa ser discutido, tem quer ser discutido. A gente tem que deixar muito claro é que não pode mais protelar uma comissão que já era para ter sido instalada em julho, agosto, mas por conta da pandemia nada estava funcionando. Mas eu vi um anúncio agora que na semana que vem as outras comissões também vão voltar a funcionar. Então, é fundamental a instalação para se discutir esse orçamento que será mais difícil do que os outros anos. Quando um orçamento é folgado, um orçamento tranquilo, ok. Agora é mais difícil ainda, e mais urgente e mais grave se tratar e discutir um orçamento quando é um orçamento curto, pequeno. Mas há sim, e tem que ser discutido, a possibilidade de colocar recursos em programas. Eu sou da tese, inclusive presido a Comissão Especial do Bolsa Família, de políticas públicas permanentes, para que isso seja uma política pública. Tem que ser uma política pública adotada para transferência de renda permanente. O Bolsa Família é algo que já deu certo, que funciona, óbvio que revendo alguns problemas que existem como todos os outros programas a gente tem que fazer ajustes. E essa comissão é para discutir justamente isso, uma reformulação do Bolsa Família. Então, eu acredito em programas de transferência de renda permanente. São nesses que eu acredito, que eu aposto, e que como ele já existe, eles estão querendo criar o Renda Cidadã, mas o Bolsa Família já existe. Porque de repente é uma possibilidade de colocar, aumentar o recurso que já existe, para o Bolsa Família, e não precisar criar um novo. Mas há o que se discutir, sim, é fundamental que a gente fale desse tema, como de muitos outros. Mas a gente precisa dizer que nós vivemos uma crise social muito grave, e com essa renda emergencial chamou atenção para mais de 20 milhões de brasileiros que eram invisíveis, que ninguém sabia que estava na extrema pobreza como está. Então, é muito urgente a gente olhar pra necessidades dessas pessoas que passam muita necessidade no pais.

Alexandre de Paula: Outra questão que também tem levantado muita discussão, que tem relação com a política fiscal e do orçamento, é a questão do teto de gastos. Tem muita gente que defende que não é possível ter o teto de gastos sem se fazer as reformas, tudo também está com dificuldade por conta da pandemia, alguns não mandaram ainda. Como a senhora vê isso, é preciso repensar o teto de gastos, é uma estrutura que não funcionada mais para realidade que a gente tem hoje?

Flávia Arruda: Na verdade a gente tem que partir da premissa de tudo isso que a gente está falando, respeitando o teto de gastos. Nós não podemos tratar disso em nenhum momento falando, “não, vamos modificar o teto de gastos”. É respeitando o teto de gastos, com muita responsabilidade fiscal, a gente tem que saber o tamanho do problema que nós temos, o tamanho do problema que nós podemos enfrentar. A previsão de orçamento é de R$ 1 trilhão e 700, mas ainda foi uma previsão em agosto. A estimativa é que isso seja ainda menor, que tenha um déficit. Porque a arrecadação diminuiu, nós tivemos um ano com menos arrecadação e com mais gastos. Para a dona de casa poder fazer uma conta básica você recebe R$500,00 todo mês e gastou o ano inteiro R$1.000,00. Então, nós tivemos uma queda muito grande na arrecadação e tivemos um aumento muito grande de investimento, de gasto público. Principalmente com o Auxílio Emergencial, que foi absolutamente necessário, importante e fundamental. Mas isso houve! A gente não pode tratar em momento algum de responsabilidades, fazer tudo isso dentro do teto de gastos, sem ultrapassar. Mas aí tem que ser uma operação dentro da comissão, em que pessoas preparadas, competentes, para se discutir orçamento, tratem de ver se tem alguma possibilidade de aumentar ou de transferir algum recurso de alguma área. E deixando muito claro, nunca retirando da educação e da saúde. Eu acho que isso precisa ficar bem claro, que a gente vive em um país que a educação precisa cada vez mais de investimento. Eu não acredito em uma sociedade justa e na transformação, um país desenvolvimento passa primeiramente pela educação. Não se admite a possibilidade de tirar recursos da educação. E a saúde que a gente sabe que tem sido o maior gargalo nesse momento, teve investimento muito alto durante a pandemia, de recursos para o Covid, que em muitos lugares estão sendo já frutos de problema, mas a saúde é um lugar que a gente não pode tirar dela, nem adaptar, porque ela é fundamental.

Alexandre de Paula: Ainda nesse embate da comissão, ontem o Maia falou bastante sobre esse assunto e defendeu que antes do orçamento se precisaria votar a PEC Emergencial. Você acha que também precisa votar antes ou é possível fazer o orçamento primeiro, ou avaliar isso ao mesmo tempo?

Flávia Arruda: Eu acho que pode ser feita ao mesmo tempo. A PEC Emergencial realmente é importante, porque ela vai tratar dos gastos públicos, do investimento e tudo, mas ela vem em paralelo com o orçamento, elas são coisas que tem que caminhar juntas ou necessariamente não tem que a PEC ser votada antes. Desde de que o parlamento foi pensado e idealizado na Grécia antiga, a coisa mais fundamental de um parlamento é o orçamento público. Se discutir o orçamento público, e a peça mais fundamental do parlamento. Então, não tem como a gente ficar nessa discussão de “não quer instalar”, “porque se não for o meu, não vai”, “porque se não cumprir determinado acordo”, é o tipo de discussão que não poderia nem estar havendo. Tem que ter responsabilidade, saber que o orçamento é a peça mais fundamental do parlamento. A PEC é importante, mas o orçamento é ainda mais. A discussão do orçamento é ainda maior, e ainda mais importante em todos os momentos do país, da história do parlamento, mas nesse ano ainda mais, porque a gente vive a maior crise dos últimos 100 anos do país.

Alexandre de Paula: A situação de arrastando também reduz o tempo de analisar o orçamento. Dá para analisar ainda esse ano, para votar esse ano, ou também já se perdeu essa oportunidade?

Flávia Arruda: Eu acho, Alexandre, que dá. Se tiver boa vontade dos presidentes ou de quem quer, porque nós muitos dos parlamentares, a grande maioria absoluta, tem consciência e quer que essa discussão aconteça o mais rápido possível. É importante a gente dizer que tem que ser votado esse ano, é uma coisa que nunca aconteceu de não se votar que é a LDO, Lei de Diretriz Orçamentárias. Porque sem votar a LDO, que normalmente se vota em agosto, olha o atraso que nós estamos, a gente não pode nem virar o ano sem tratar de orçamento, porque o governo com a LDO, essa Lei de Diretriz Orçamentárias, possibilita o governo, enquanto a gente discute o orçamento, pagar a folha ou pagar custo, fazer pagamento das contas. Que só é permitido com a votação da LDO.

Alexandre de Paula: Deputada, você estava falando que seria a primeira mulher, caso seja eleita, escolhida, para presidir a Comissão Mista de Orçamento. Hoje já se debate, felizmente mais, a presença e participação da mulher na política, em cargo de destaque, mas ainda falta avançar muito. Como que a senhora vê o cenário atual?

Flávia Arruda: Hoje, particularmente, eu estou vivendo um momento de incredulidade, porque nos tempos atuais ainda viver com julgamentos, com tantos preconceitos, de lugares que você alcançou igual a todos os homens, e eu estou falando em todas as esferas, a gente vê mulheres serem perseguidas, apontadas, em lugares que elas têm tanta competência, ou mais do que muitos homens, e elas são simplesmente perseguidas por serem mulheres. Nesse caso da Comissão Mista de Orçamento, eu faço uma indagação. Se a candidatura oficial, que é muito importante deixar claro, que a candidatura do maior bloco do congresso é quem indica o presidente da CMO. Se a candidatura que tivesse sido indicada para a presidência da CMO fosse um homem, será que estava tendo tanto problema assim¿ Será que teria tido tanta dificuldade em simplesmente resolver e falar, “Vamos cumprir o regimento”. Será? Será que é porque é uma mulher? E aí não é fazendo a vitimização e nem nada disso. Muito pelo contrário, nós temos a capacidade, eu fui escolhida por um bloco de maioria de líderes, preparadíssimos, que estão no congresso há tempos, ou mesmo políticos que representam um grupo enorme de deputados, que não escolheriam alguém que eles não julgassem que tem responsabilidade, que eles acreditam, que eles confiam e que tem preparo para isso. Eu me julgo, me considero e afirmo que estou absolutamente preparada para ocupar esse cargo. Mas é impressionante como sempre onde uma mulher precisa buscar o seu espaço, a gente tem resistência. As vezes velada, as vezes dita, e de forma tão grosseira. Quando vão citar o outro possível candidato, falam “Ah, o fulano”, a mulher “Ah, porque foi indicação”, “porque é filha de alguém”, “esposa de alguém” ou “foi colocada ali por alguém”. Eu quero dizer que mulher não é manipulada, por ninguém. Eu tenho um mandato como todos os outros tem, eu fui eleita como todos os outros homens foram. Eu a as outras 76 mulheres temos o mesmo mandato, a mesma capacidade técnica, competência. A gente já mostrou que a gente tem além do que muitos têm. A gente precisa ocupar os espaços que também são nossos por direito. E essa é uma das questões que eu me coloco cada dia mais. Com mais problema que a gente tem, com mais discriminação, preconceito ou dificuldade que a gente tenha, mais força eu tenho para ir, porque eu sei que essa missão não é mais minha ou do meu partido ou do bloco. É uma missão de todas as mulheres, poder ocupar esse espaço é abrir um espaço para todas as outras poderem também ocupar. Tem relatorias importantes, ou ser presidente ou a relatora do orçamento no ano que vem, mas é preciso. Onde abre uma porta, ou uma janelinha para uma mulher, a gente tem que agarrar essa oportunidade. E essa oportunidade eu estou agarrando com todas as forças, porque eu quero representar, não só as mulheres do parlamento, mas todas as mulheres que por puro preconceito, por puro machismo são o tempo todo julgadas. A gente precisa o tempo todo provar, que a gente tem capacidade. Precisa o tempo todo provar, que a gente pode. Mas se é para ser assim, a história da ocupação feminina tanto no parlamento, quanto nos espaços, sempre foi feita com muita luta, com muita guerra. E agora não vai ser diferente. Eu vou enfrentar isso, mas a única coisa que eu peço é que dê a possibilidade de ir para o voto. Mas não tire isso no tapetão, não tire essa possibilidade da candidatura oficial do bloco pela proporcionalidade, respeitar a proporcionalidade do parlamento pelo simples fato “Ah, não, mas como é uma mulher”, não! É uma mulher, eleita com mandato, como todas as outras capaz, e que represento muitas mulheres.

Alexandre de Paula: Deputada, uma grande dificuldade ainda falando desse assunto, é a entrada das mulheres na política. Existe hoje a legislação que prevê a porcentagem de mulheres nas candidaturas, mas a gente ainda vê muito partido usando mulheres como laranjas, em que elas são apenas colocadas ali para compor a chapa. A distribuição dos recursos ainda é muito desigual também. Como resolver esses problemas, como solucionar isso para que a gente tenha uma representação mais igualitária?

Flávia Arruda: Alexandre, tem quem critique as cotas femininas, quem diga, “Ah, mas por cotas os partidos são obrigados”. Infelizmente a gente ainda precisa tratar assim, porque se a gente não der um mínimo de oportunidade, naturalmente, não terão mulheres. Porque as mulheres têm muito mais dificuldade de entrar em um mundo absolutamente machista, feito por homens. As leis, a constituição, poucas mulheres participaram disso, ela é feita por homens. E hoje, essas conquistas foram batalhadas com muita união, com muita briga. A gente quer tratar do dia que não precise mais falar “não precisa ter cota”, porque a gente já conseguiu alcançar uma equidade. A equidade é pelo menos possibilitar uma disputa igual, mas é muito difícil ainda. A gente enfrenta muitas dificuldades, como você mesmo disse, desde tempo de televisão, de recursos ou mesmo de dar àquela mulher a mesma atenção que é dada aos homens. Eu sou na bancada do DF, uma exceção e um exemplo para o país inteiro. Que nós temos proporcionalmente a maior bancada feminina dos estados, porque aqui no Distrito Federal de 8 parlamentares nós somos 5 mulheres. Nós fizemos nosso dever de casa, mas isso não é infelizmente uma realidade no país, mas a gente precisa dar oportunidade às mulheres, cobrar para que os partidos também deem essa oportunidade, e não só usem a mulher como trampolim para poder cumprir a cota, tanto de vagas quanto de recursos, mas que dê oportunidade à essas mulheres. No meu caso especificamente, eu sou a presidente do partido, não sou presidente do PL Mulher não, eu sou presidente do PL mesmo. Isso tem sido adotado pelo nosso partido de dar espaços, e faço questão. É um trabalho que tenho feito, que nas eleições de 2022 como presidente do partido, eu quero que tenha 50% de participação de mulheres. E para isso, eu tenho buscado nas cidades capacitar mulheres, encorajar elas, porque é muito difícil o que a gente enfrenta. Primeiro que a mulher precisa deixar toda uma estrutura familiar, de filhos, casa, marido, trabalho, para poder ir à luta. Quando chega lá, ela ainda é julgada, ela ainda é apontada ou colocada de escanteio. Eu sou uma das grandes defensoras da participação das mulheres na política, por ter que ter as mesmas oportunidades. Eu sei das dificuldades que são, mas eu quero como presidente do partido tornar isso uma realidade aqui no PL do Distrito Federal. Ter a participação da mesma quantidade de mulheres a gente ter de homens. E sabe qual é o nome disso, Alexandre? Justiça. Equidade. É dar os mesmos direito, nós temos os mesmos direitos que os homens têm. E aqui a gente não está fazendo política de ideologia de gênero, não. Nós estamos tratando do básico, que é termos os mesmos direitos. Agora se as mulheres vão conquistar mais espaços, Deus é que sabe, e os homens que não tentem nos segurar, porque a gente ocupa mesmo!

Alexandre de Paula: Outro assunto que também é muito tratado no seu mandato, como presidente da Comissão de Violência Contra Mulher, de combate de violência contra a mulher, como ficou esse acompanhamento durante a pandemia? Era uma preocupação também, as mulheres em casa com o isolamento social, e é um tipo de violência que geralmente ocorre no ambiente familiar?

Flávia Arruda: Alexandre, infelizmente a comissão não pôde voltar, mas agora pela previsão acho que a gente vai poder retomar ela presencialmente. Porque o objetivo dessa comissão, além de fiscalizar, é criar protocolos de atendimento no país. A gente viveu nesse momento de pandemia uma falta de informação muito grande. Tanto de informação dos órgãos públicos, quanto das próprias mulheres. Porque muitas delas estavam ali, estão até hoje isoladas, em casa junto com seus agressores. Esses dados de que a violência, falo a nível nacional, número de feminicídio aumentou e o número de violência contra mulher aumentou.  Eu acho que tem uma cortina em torno disso, porque muitas dessas mulheres não estão tendo a possibilidade de sair de casa, de onde elas estão, muitas das vezes trancadas com seus agressores e fazerem uma denúncia. Mas é preciso que a gente também, agora, retome esses protocolos, na tentativa, ou mesmo a possibilidade de fazer um protocolo de atendimento nacional, que todas as mulheres saibam aonde recorrer, e que principalmente o estado possa amparar essas mulheres de verdade. A gente vê casos de mulher que foram lá, que denunciaram, que estavam com medida protetiva e que por alguma razão o agressor não ficou preso, ou não foi detido, ou não tinha a medida dada naquele momento, e voltou e matou aquela mulher. É o tipo de coisa que a gente não pode mais admitir na nossa cidade, no nosso país e no mundo. Matar mulher pelo simples fato de ela ser mulher, por posse, por ciúmes, porque não admite. A gente viu aqui no Distrito Federal, aquele maluco que não admitiu a separação, foi lá e pegou uma chave de fenda e golpeou a mulher, naquela grosseria, de uma forma animal. É o tipo da coisa que tem que ser escrachado para todo mundo ver o tipo de animal que faz esse tipo de coisa com uma mulher, ou com qualquer pessoa. Por não admitir que essa mulher saia de um relacionamento abusivo.

Alexandre de Paula: Deputada, nosso tempo está acabando, tem um minutinho, mas queria te fazer uma pergunta antes. A senhora foi a deputada mais bem votada do DF e está agora com destaque nacional. Quais os planos para 2022, já tem ideia do que vai fazer?

Flávia Arruda: Alexandre, seria muito leviano, precipitado e irresponsável da minha parte a gente tratar de qualquer coisa para 2022, vivendo um momento que a gente está vivendo. No momento o fundamental é cuidar da população, é cuidar dessas pessoas, é tratar da economia, da parte social, da saúde pública, em um momento como esse, de tamanha crise que a gente vive. 2022 está muito distante, temos é que trabalhar hoje, para a população ser atendida.

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